Instabilidades climáticas e o novo mapa da agricultura brasileira

As temperaturas acima da média deste verão, assim como a falta ou o excesso de chuvas em algumas regiões do Brasil, estão sendo apontadas por especialistas em clima como as primeiras manifestaçãoes de um processo de instabilidade climática que poderá se intensificar nas próximas décadas, a ponto de mudar a geografia da produção agrícola brasileira, até o final do século.

Um exemplo do que deverá ser o futuro.

O estudo intitulado “Aquecimento Global e a nova geografia da produção agrícola no Brasil”, – elaborado em 2008 (e atualizado em 2013) por uma equipe de especialistas sob a coordenação dos pesquisadores, Eduardo Delgado Assad, da Embrapa Agropecuária e Hilton Silveira Pinto, do Cepagri/Unicamp (Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura, da Universidade Estadual de Campinas) -, demonstrou que a atual configuração geográfica da produção agrícola brasileira poderá ser bem diferente em 2100. A razão para isso seriam as mudanças na localização das áreas de baixo risco climático para determinadas culturas, devido a episódios de instabilidades climáticas, que deverão ser cada vez mais comuns no Brasil nas próximas décadas.

De acordo com o estudo, poderá haver migração de determinadas culturas, de regiões onde elas são tradicionais para outras onde hoje elas não ocorrem. Da mesma forma, áreas que atualmente são grandes produtoras de algumas espécies, especialmente grãos, podem não estar mais aptas climaticamente para esse plantio. Ou seja, algumas culturas perderão espaço (área) em regiões que hoje são consideradas de baixo risco climático para elas, mas poderão ganhar espaço em outros locais, que passarão a ser considerados de baixo risco. Os modelos climáticos utilizados no estudo da Embrapa/Cepagri indicam que pode haver uma relação entre o surgimento dessas instabilidades climáticas e o aquecimento global, embora tal relação ainda seja uma questão discutida pela comunidade científica mundial. Na época em que o estudo foi elaborado (2008), tais modelos permitiam prever que os episódios de instabilidade climática começariam a ser percebidas mundialmente – com maior ênfase nas áreas de clima tropical – em 14 ou 15 anos, ou seja, a partir de 2020. Passados seis anos e tivemos no Brasil, no verão 2013/2014, um exemplo típico das instabilidades previstas. Isso não significa, porém, que esses problemas climáticos se repetirão a cada ano. Segundo os especialistas, eles deverão voltar a ocorrer, a princípio a intervalos mais espaçados e irregulares que depois ficarão mais próximos e mais regulares até que novas condições climáticas se estabilizarão, o que leva cerca de pelo menos 20 anos.

Perdas e ganhos.

O café poderá perder aproximadamente 33% da atual área de baixo risco climático em grandes estados produtores como São Paulo e Minas Gerais, mas poderá ter ganhos na região sul, hoje restrita a esta cultura por causa do alto risco de geadas.A ocorrência desses fenômenos extremos deverá se reduzir no sul do Brasil, fazendo com que a região se torne mais propícia ao plantio de café, cana de açúcar, e outras espécies, como a mandioca, por exemplo, mas não mais ao plantio de soja, uma vez que esta porção do território estará mais sujeita a estresse hídrico e também à ocorrência de chuvas – em forma de fortes temporais – justamente nos meses de colheita da soja (verão).

Vale ressaltar que a cana de açucar é uma das poucas culturas a serem favorecidas por uma eventual mudança de clima no Brasil, podendo chegar a dobrar sua área de ocorrência. No sul do país, por exemplo, áreas que hoje apresentam restrições à cana, também pelo alto risco de geadas – principalmente no Rio Grande do Sul – poderão se tornar áreas com grande potencial produtivo para esta gramínea, em 20 ou 30 anos.

Outras culturas como o milho, arroz, feijão, algodão, girassol e mandioca deverão sofrer forte redução no Nordeste brasileiro; nesse caso, em razão do agravamento da falta de recursos hídricos já existente na região e que poderá se tornar crítica em duas ou três décadas. A área correspondente ao Agreste nordestino, hoje responsável pela maior parte da produção regional de milho e a região dos cerrados nordestinos – sul do Maranhão, sul do Piauí e oeste da Bahia – deverão sofrer fortes impactos das instabilidades climáticas. Com isso, a longo prazo,o cultivo de grãos – especiamente milho e soja – na região do MAPITOBA que corresponde hoje à principal fronteira agrícola em expansão no Brasil, estará seriamente ameaçado, se uma solução não for encontrada. Segundo o pesquisador da Unicamp, a irrigação, que à primeira vista poderia resolver o problema, poderá ser dificultada pela grande redução da disponibilidade de água prevista para a região. As atualizações do estudo dão conta de que os rios do nordeste – e do leste da Amazônia- poderão ter sua vazão reduzida em 20% até o final do século, o que significa uma redução desse mesmo percentual na oferta de água. Na bacia do rio Tocantins essa redução poderá chegar a 30%.

Nesse contexto, a soja deverá sofrer as maiores perdas de áreas climaticamente aptas até 2100. No estudo da Embrapa/Unicamp foram traçados dois cenários, levando-se em conta maiores ou menores graus de elevação das temperaturas globais. No melhor deles, a redução das áreas de baixo risco climático para a soja no Brasil seria de 21,6% em 2020; 29,6% em 2050 e 34,8% em 2070, percentuais que poderiam chegar a 23, 5% em 2020; 34,1% em 2050 e 41,3% em 2070, no pior dos cenários. A boa notícia é que na maior parte do Centro-Oeste –região líder nacional na produção do grão – as mudanças climáticas previstas favorecerão ainda mais o cultivo da oleaginosa, uma vez que o período seco do inverno vai se estender um pouco mais, o que significa condições ideais (chuvas) nos períodos importantes para o desenvolvimento das lavouras: germinação-emergência e floração-enchimento dos grãos. Ou seja, as condições climáticas do Centro-Oeste brasileiro, que atualmente já são propícias ao cultivo de soja tornar-se-ão ainda mais favoráveis.

Mitigação e adaptação: duas palavras-chave para escrever o futuro.

Os futuros cenários da agricultura brasileira, projetados no estudo da Embrapa/Unicamp e resumidos neste artigo, podem parecer um tanto fatalistas, mas é importante lembrar que eles só deverão se concretizar com a intensidade descrita se não forem tomadas as devidas providências para modificá-los ou, pelo menos, minimizá-los Certamente algumas perdas serão inevitáveis principalmente porque é relativamente recente o reconhecimento da vulnerabilidade do setor agrícola brasileiro, frente as questões climáticas, pelos seus principais atores: os produtores rurais. Porém, é certo também que um modo de produção no Brasil, seja de grãos, fibras, proteínas animais ou biocombustíveis, embora não seja ainda ideal, tem se orientado cada vez mais por um padrão ambientalmente correto com o uso de técnicas de agricultura sustentável. Este modo de produção mais sustentável teve início com a adoção do plantio direto e tem sido ampliado com a implantação dos sistemas de integração lavoura/pecuária e integração lavoura/pecuária/floresta na recuperação de áreas degradadas. Mais recentemente – ainda que em menor escala – ele está sendo reforçado com o uso da agricultura de precisão. São técnicas capazes de mitigar ou diminuir o impacto ambiental da atividade agropecuária sobre o clima da Terra, na medida em que promovem o uso intensivo da terra e os ganhos de produtividade, reduzindo dessa forma a pressão pela abertura de novas áreas -sinônimo de desmatamento- e a degradação das áreas já cultivadas, dois fatores que indubitavelmente contribuem para o aumento da emissão de gases de efeito estufa e, consequentemente, para o aquecimento global.

 

Assim sendo, um dos grandes desafios que os agentes do setor agrícola brasileiro têm pela frente – senão o maior- é estender o uso dessas tecnologias sustentáveis a um número maior de produtores, uma vez que, sem considerar cada uma isoladamente, elas ainda são restritas a uma parcela que não chega a 30% dos produtores brasileiros. A exceção é o plantio direto que já é utilizado em mais de 70% das lavouras brasileiras de grãos.

 

O outro desafio diz respeito à necessidade de se adaptar as culturas às novas condições climáticas que poderão passar a existir. Para o pesquisador da Unicamp essas adptações representam uma alternativa incontornável e a pergunta que têm sido feita pelos especialistas é: quanto custa substituir uma variedade se soja por outra que seja tolerante à seca e ao calor? A notícia mais recente é que o centro de soja da Emprapa de Londrina (PR)- onde já foi produzida uma variedade resistente a estes dois fatores – está trabalhando na produção de mais seis variedades. Cada uma delas demora dez anos para ser desenvolvida (e mais três para ser multiplicada) a um custo de US$ 1 milhão por ano, o que significa que o investimento em uma nova variedade chega a US$ 10 milhões. Assim sendo, para que Brasil desenvolva um plantel de variedades de soja adaptadas, semelhante ao plantel que tem hoje (pouco mais de 300 variedades), terá que investir cerca de US$ 3 bilhões. Porém, se nada for feito em pesquisa e melhoramento genético, a relação entre os investimentos no desenvolvimento de variedades adaptadas e as perdas financeiras da soja por problemas climáticos – num horizonte de 20 anos – é de 1:8. Ou seja, poderemos ter prejuízos financeiros oito vezes maiores do que os investimentos necessários para produzir uma nova variedade. É bom lembrar que, além da soja, estão sendo desenvolvidas variedades de milho e feijão, de ciclo mais curto e mais resistentes à seca e ao calor.

 

Enfim, se por um lado os desafios parecem cada vez maiores, assim como a urgência em enfrentá-los, por outro lado eles podem significar o surgimento de boas oportunidades de crescimento para os operadores de diversos sementos das cadeias agrícolas, como por exemplo, as indústrias de fertilizantes, corretivos, inoculantes e defensivos. Estas poderão expandir seus mercados desenvolvendo novos produtos mais eficientes e melhor adaptados às futuras exigências da agricultura brasileira. Os segmentos de máquinas e implementos agrícolas e os de softwares de gestão das propriedades e das atividades agropecuárias também parecem ter um futuro promissor nas próximas décadas, já que a tendência é que a crescente necessidade de tecnologia para o enfrentamento de condições de produção mais adversas leve ao aprimoramento daquelas já existentes bem como ao desenvolvimento de outras, mais sofisticadas.

 

Novas oportunidades e novos desafios virão. Quem for capaz de antecipá-los poderá se preparar melhor, tanto para aproveitá-los quanto para enfrentá-los.

 

 

 

Referências Bibliográficas.

 

EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA. UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS. Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura. Aquecimento Global e a nova geografia da produção agrícola no Brasil. São Paulo, 2008. 84 p.

 

Entrevista com o Professor Dr. Hilton Silveira Pinto, engenheiro agrônomo e pesquisador do Cepagri/Unicamp. Suporte digital. Entrevista concedida a Márcia Dietrich, gravada em 25/02/2014. Campinas -SP.