Futuro da soja brasileira: potencial produtivo existe, falta estratégia internacional

Na China de 40 anos atrás, os porcos cuja carne complementava as refeições das famílias em que predominavam grãos e verduras, eram criados em pequeno número, nos quintais das casas e alimentados com restos de colheitas de arroz, milho, e com sobras das mesas. A importância desse tradicional alimento para as famílias chinesas fica evidente até no caractere que corresponde à palavra “lar” em mandarim, o qual traz a figura de um porco sob um telhado. Passadas quatro décadas, a população chinesa que migrou do campo para as cidades alcançando com essa mudança novos patamares de renda e de consumo, mudou também seus hábitos alimentares, passando a consumir cada vez mais alimentos de origem animal. Com rendimentos anuais que variam entre US$ 10 mil e US$ 60 mil, a nova classe média urbana da China destina aproximadamente 38% de sua renda mensal à compra de alimentos, sendo que 30% desse total são gastos em produtos de origem animal, (carnes, laticínios e ovos). Segundo dados da FAO, em 1985 o consumo total de carnes (bovina, suína, ovina e de aves) da China correspondia a 13,6 % do consumo total mundial. Hoje representa 30%. Em 1985 cada chinês consumia 19,23 Kg de carne, dos quais 5 kg eram de carne suína. Em 2010 esse consumo subiu para 58,8 kg, sendo 38,2 kg de carne suína, de longe a preferida dos chineses.

Dos quintais para a produção em larga escala.

Metade da população mundial de suínos – 476 milhões de cabeças em 2011- vive hoje na China e, segundo projeções do USDA, no final de 2012 o rebanho do país terá atingido o tamanho recorde de 479 milhões de cabeças. Contudo, apesar de imenso, em 2011 esse rebanho foi suficiente apenas para suprir minimamente a demanda do país, que precisou importar mais 178.000 toneladas de carne suína, tendo os Estados Unidos como principal fornecedor, uma vez que o governo decidiu manter uma reserva estratégica do produto, que embora pequena (200.000 toneladas) é única no mundo. Ainda preocupado em evitar flutuações de preços e garantir o abastecimento do mercado interno, o governo chinês tem realizado investimentos para incentivar a produção doméstica de suínos em larga escala. No início de 2011, por exemplo, a estatal COFCO (China National Cereals, Oils and Foodstuffs Corporation) maior empresa de processamento de alimentos e comercialização de grãos da China, estabeleceu uma joint venture com a japonesa Mitsubishi com o objetivo de investir em unidades de criação e processamento de suínos (e frangos) na província de Sichuan. A mesma empresa pretende produzir entre 10 milhões e 15 milhões de porcos por ano até 2015 (aumento de 1,5 milhão na taxa de produção atual) tornando-se assim a maior empresa nacional na produção de suínos. A empresa anunciou ainda investimentos de aproximadamente 3,14 bilhões de dólares na criação de três bases de suinocultura em Tianjin, Wuhan e Jiangsu, com capacidade para produzir, cada uma, 3 milhões de suínos por ano. Outro exemplo de investimentos locais na produção doméstica de carne suína vem do Yurun Food Group, um dos maiores processadores dessa carne no país. Em 2011 a empresa abateu 46,05 milhões de cabeças e pretende investir em novas linhas de produção para atingir a marca de 70 milhões de cabeças por ano até 2015. Esses animais são alimentados com rações proteicas à base de soja e milho. Considerando a experiência passada, fica evidente que a China não terá condições de produzir todos os recursos forrageiros necessários para alimentar esse imenso rebanho.

O desequilíbrio entre oferta e demanda de soja na China.

Alguns fatores vêm contribuindo para a redução das áreas agrícolas da China. Entre eles está o potencial produtivo quase nulo das áreas que ainda poderiam ser cultivadas, aliado à escassez e à baixa qualidade dos recursos hídricos do país, ambos afetados pela contaminação por resíduos industriais. Outro fator diz respeito ao avanço das grandes cidades sobre as áreas agrícolas chinesas, e um terceiro, às decisões governamentais de transformar algumas vilas rurais em áreas industriais. Assim, em diversas províncias chinesas, pequenos produtores rurais que se ocupavam do cultivo da terra são levados a trabalhar na indústria ou construção civil, recebendo para isso um bônus de 1000 yuans mensais (US$ 175), acima dos ganhos que obtinham nas lavouras. Além da redução das áreas agrícolas resultante dessas mudanças, o acréscimo nos rendimentos das famílias chinesas recém urbanizadas, mesmo sendo pequeno, contribui para o aumento do consumo de alimentos, acentuando, consequentemente, o desequilíbrio entre oferta e demanda de alguns produtos básicos, entre os quais a soja.

Apesar de ocupar o 40 lugar entre os maiores produtores mundiais de soja a China assiste ao decréscimo de sua produção dessa oleaginosa. Em 2011 o país produziu 14 milhões de toneladas do grão contra 17 milhões de toneladas em 2005, e as projeções (USDA/FAS) indicam que, daqui para frente, a produção chinesa de soja ficará limitada a 15 milhões de toneladas, sem chances de ultrapassar esse volume. O consumo, ao contrário só tende a aumentar, sem dar qualquer sinal de estabilização. Além do volume de soja que deverá ser consumido principalmente pelo imenso rebanho suíno chinês (transformado em farelo), o apetite voraz da indústria esmagadora de oleaginosas, frente o aumento do consumo interno por óleos comestíveis, é outro fator que impulsionará a corrida da China ao mercado global de soja. Em janeiro de 2011 o governo chinês deixou de lado o controle de preços imposto à indústria de esmagamento de oleaginosas que havia sido adotado com objetivos anti-inflacionários e vigorava desde o final de 2010. A pequena melhoria nas margens da indústria chinesa de esmagamento resultante dessa suspensão foi suficiente para que a China visse aumentar, de forma exponencial, suas necessidades de importação de soja. A indústria chinesa de esmagamento de soja tem atualmente uma capacidade ociosa de aproximadamente 30 milhões de toneladas. Isso porque, em anos recentes, o governo ofereceu incentivos financeiros aos operadores nacionais para que expandissem suas atividades, na tentativa de diminuir a influência de empresas multinacionais que passaram a operar joint ventures em território chinês. Diante das melhores margens os operadores chineses querem agora reduzir ou se possível eliminar essa capacidade ociosa. Segundo previsões da própria indústria, na safra 2014/2015 a China deverá importar nada mais, nada menos que 68 milhões de toneladas de soja, o que representa um grande salto em comparação ao volume importado na temporada 2010/2011, que ficou próximo de 58 milhões de toneladas. A expectativa é de que em 2020 as importações chinesas atinjam 85 milhões de toneladas. Estas projeções estejam alinhadas com as do USDA, mas são consideradas conservadoras tanto pela própria indústria chinesa quanto por entidades brasileiras ligadas à cadeia produtiva de soja. De acordo com projeções da Associação dos Produtores de Soja do Mato Grosso, em 2020 a China precisará importar 100 milhões de toneladas de soja, para atender a um consumo interno que chegará a 115 milhões de toneladas.

Quem poderá alimentar o porco chinês?

Embora o gigante americano seja, historicamente, o principal exportador de produtos agrícolas (e pecuários) para a China, quando se trata de soja ele enfrentará três limitações importantes, daqui para frente, para manter esse posto. A primeira delas está no fato de que país não tem mais reservas fundiárias das quais poderia lançar mão para expandir sua produção, a menos que as lavouras fossem plantadas em regiões suscetíveis a stress hídrico que demandariam investimentos elevados em grandes projetos de irrigação o que acabaria resultando em elevação dos custos de produção e na perda de competitividade do grão americano. Em segundo lugar, na acirrada disputa por área entre a soja e o milho, o milho tem levado a melhor e isso deve continuar nos próximos ciclos. A expectativa de incremento da área ocupada pelo cereal nos Estados Unidos está associada à ampliação do programa de etanol norte-americano e também às previsões de que a própria China vai elevar suas compras de milho. O último entrave para a expansão da oferta americana de soja à China diz respeito aos níveis de produtividade das lavouras americanas que já atingiram seu ponto máximo, ditado pela própria espécie. Isso não significa, entretanto, que os Estados Unidos ficarão fora da disputa por uma fatia maior do que aquela que já ocupa no mercado chinês de soja. Qualquer estabilização no consumo doméstico de soja representa um excedente que o país poderá perfeitamente destinar à China, valendo-se de sua estratégia comercial já consolidada naquele país. Ou seja, quem quiser competir com os Estados Unidos no abastecimento do mercado chinês, não vai encontrar um caminho livre.
A Argentina, por sua vez, a exemplo do que ocorre com os Estados Unidos, também sofre com a falta de espaço para expandir suas lavouras. Outrossim, devido à força da sua indústria de esmagamento e a mecanismos tributários, a Argentina é e continuará sendo forte na exportação de farelo e óleo de soja, competindo com o Brasil no fornecimento desses produtos ao mercado europeu, mas não pode ser considerada um competidor de peso quando se trata de exportar soja em grãos, produto que mais interessa à China.

O Brasil pode se tornar o grande fornecedor da China? Segundo as projeções da APROSOJA MT, em 2020 o Brasil poderá fornecer 60 milhões de toneladas de soja à China, bastando para tanto que o país mantenha o seu atual marketshare no mercado chinês. Na safra 2009/2010 o Brasil exportou 19 milhões de toneladas de soja para a China, ou o equivalente a 65% da produção nacional. Em 2010/2011 o volume exportado para o gigante asiático subiu para 22 milhões de toneladas que corresponderam a 67% da produção brasileira de soja. Tendo em vista que as projeções mais conservadoras apontam para uma produção brasileira de 100 milhões de toneladas em 2020, as 60 milhões de toneladas que poderão ser vendidas à China corresponderão a 60% do total produzido pelas lavouras brasileiras.

Entretanto, o fato de o país estar muito bem posicionado em termos de capacidade de aumento produção, por si só não é suficiente para garantir uma evolução favorável das exportações a ponto de ele se tornar um grande – ou quem sabe, o maior – fornecedor de soja ao mercado chinês nos próximos anos. Muitos outros elementos terão que ser levados em conta para que isso se concretize. O país precisará responder rapidamente a três séries de questões, se quiser consolidar e expandir o mercado que a produção brasileira de soja ocupa hoje na China.

A primeira diz respeito à organização do nosso aparato diplomático na China. Será que representação brasileira nesse grande país dispõe, atualmente, de uma rede eficiente e especializada de adidos agrícolas? Será que esses profissionais são capazes de cumprir a contento sua missão de estabelecer contínuas relações com dirigentes de grandes empresas chinesas de esmagamento de oleaginosas com potencial para se tornarem futuros clientes da cadeia nacional de soja? Já foram estabelecidas relações com aquele país que envolvem diretamente as organizações profissionais da cadeia produtiva da soja brasileira? Missões realizadas em direção à China, ao longo da última década, permitiram que os profissionais responsáveis, envolvidos com a sojicultora nacional, estabelecessem relações de confiança com dirigentes de empresas chinesas que utilizam a soja e seus derivados?

Ao que tudo indica, o Brasil precisa avançar muito no que concerne à estrutura de apoio internacional ao seu mercado agrícola, visto que esta estrutura é ferramenta fundamental para o bom desenvolvimento deste mercado. O Brasil dispõe apenas de um adido agrícola na China, enquanto os Estados Unidos mantém 47 adidos no país. Isso significa que falta agilidade ao país para agir preventivamente a qualquer evento que possa vir a colocá-lo em posição delicada perante seus parceiros comerciais no mercado internacional de produtos agropecuários. Se o Brasil dispusesse de profissionais ligados a seu corpo diplomático, em número suficiente, devidamente preparados e dedicados a divulgar e consolidar junto aos mercados e à comunidade internacional as boas iniciativas e as práticas sustentáveis que fazem parte do dia a dia de seu setor agropecuário, certamente o país não estaria tão suscetível a ataques infundados como ainda acontece. Além disso, esses profissionais poderiam também manter contatos permanentes com operadores instalados nas principais regiões de processamento da soja da China visando, antecipar as demandas, conhecer as condições de precificação da soja, acompanhar as operações de logística, etc. Ou seja, eles atuariam como um canal de comunicação permanente entre os produtores brasileiros de soja e os compradores chineses desse produto.

A segunda série de questões trata da necessidade de se levar em conta, no Brasil, as características específicas da demanda chinesa e da evolução dessas características ao longo do tempo. A organização da cadeia brasileira de soja permite que todos os seus integrantes conheçam e sigam as exigências de qualidade do mercado chinês, suas normas técnicas e restrições sanitárias? Nesse caso, felizmente, a avaliação de profissionais envolvidos com a sojicultora brasileira é de que o grão produzido aqui já tem credibilidade e qualidade reconhecidas nos principais mercados importadores. No entanto, todo cuidado é pouco. No caso da China, por exemplo, à medida que o país vê aumentar sua dependência do mercado brasileiro de soja poderá vir a adotar medidas ou estratégias comerciais que tenham como objetivo diminuir sua fragilidade perante esse parceiro. Mais uma vez será importante para o Brasil poder contar com o apoio de sua diplomacia para se prevenir de futuras instabilidade no fluxo de importações entre os dois países.

A terceira e última série de questões está relacionada à formação de futuros profissionais e executivos responsáveis pela produção brasileira de soja. Nossas faculdades de agronomia e/ou instituições de ensino superior especializadas estão preparando devidamente seus alunos, oferecendo a eles, a partir de agora, conhecimentos sólidos sobre os mercados, as instituições e a cultura da China? O aluno que busca um diploma em agronomia no Brasil, como parte de sua formação acadêmica, pode aprender mandarim e se preparar para exercer funções de negócios relacionadas ao gigante asiático? Nossas universidades se organizaram para receber e formar no Brasil alunos chineses, futuros gestores – e, portanto, futuros contatos – da indústria alimentar da China?

Estas perguntas podem parecer distantes do tema discutido aqui, mas sobre esses aspectos é preciso acrescentar um ponto essencial. Os Estados Unidos, principal competidor do Brasil no mercado mundial de soja, tem implementado desde a década de sessenta um dispositivo eficiente de acompanhamento dos mercados que pretende atender e dominar. Os profissionais da cadeia norte-americana de soja e dirigentes governamentais sentir-se-iam perfeitamente seguros e confiantes para responder afirmativamente à série de interrogações acima formuladas.

Resumindo: o Brasil tem potencial para atender amanhã o enorme mercado da alimentação animal na China. Resta a pergunta: o país tem estratégia para chegar a ocupar a posição de primeiro fornecedor mundial? Esta estratégia internacional é fundamental para o agronegócio brasileiro em um mundo onde a demanda por produção agrícola vai continuar crescendo e onde o Brasil pode se destacar como potencial fornecedor.