Bem-vindo
Visitante
Newsletter
Conheça as publicações da AgroBrasConsult
........................................................................................................................................................................................................................................
O momento é de otimismo para a suinocultura brasileira, mesmo com desafios a vencer
09, Jun 2010
Mesmo com uma queda de cerca de 5 % em volume, em comparação a abril de 2009, o resultado das exportações em abril deste ano é considerado positivo pela ABIPECS

Mesmo com uma queda de cerca de 5 % em volume, em comparação a abril de 2009, o resultado das exportações de 51.251 toneladas de carne suína brasileira, em abril de 2010, é considerado positivo pela ABIPECS (Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína), uma vez que o valor de US$ 132 mil dólares pago por esse volume significa recuperação de preços e um aumento de receita de 13% no primeiro quadrimestre do ano, o que compensa a distorção cambial existente no Brasil. Contudo, as margens de lucro da atividade continuam estreitas, segundo cálculos dos custos de produção divulgados pela Embrapa Suínos e Aves (SC), que demonstram os prejuízos sofridos pelos suinocultores nos últimos cinco anos.
Confira o que diz sobre estes assuntos, o presidente da ABIPECS Pedro de Camargo Neto*

No atual cenário, o que se pode esperar em termos de crescimento da produção de carne suína no Brasil e de comportamento dos mercados, interno e externo?

Pedro: Somos sempre otimistas e esperamos que a produção cresça junto com a demanda, tanto externa como internamente. No mercado interno precisamos desenvolver melhores canais com o consumidor e aumentar o consumo de carne in natura. No externo, o desafio é conseguir que os países reconheçam com maior celeridade a sanidade do Brasil, que hoje está entre as melhores do mundo. A expectativa é de que nos próximos 10 anos as exportações de carne suína brasileira tripliquem. Fazem parte das nossas metas os mercados dos Estados Unidos e União Européia; e na Ásia, o do Japão, Coréia do Sul e China. Os dois primeiros são importantes porque funcionam como chancela para a conquista de outros, já que são tomados como parâmetros em termos de exigências.

 

A recente suspensão da Rússia à importação de carne suína de algumas plantas brasileiras pode atrapalhar esses planos de expansão?

Pedro: Não acredito que essa suspensão tenha impactos negativos importantes na conquista de outros mercados porque, a meu ver, não é nada que não aconteça também em outros mercados do mundo. Como a Rússia é o nosso principal cliente, esse tipo de ocorrência faz parte da dinâmica do mercado: quanto maior o comércio, mais problemas. O ideal seria que isso não acontecesse, mas acontece.

 

Levando-se em conta que na região sul, principal polo de produção suína, predominam os pequenos e médios produtores que lutam para se manter na atividade, como deve evoluir a produção nessa região?

Pedro: Os Estados do Sul têm elevado a sua produção com aumentos de produtividade e não com aumentos do número de matrizes. Acredito que esta tendência permanecerá.

 

E as perspectivas de crescimento na região Centro-Oeste, como ficam?

Pedro: A região Centro-Oeste, embora beneficiária de custos de grãos mais reduzidos, enfrenta outros tipos de problema como logística e infraestrutura deficientes, e escassez de mão-de-obra. O que se observa também é que existe, atualmente, um equilíbrio entre oferta e demanda de carne suína no mercado interno. Um aumento de produção no Centro-Oeste significaria sobra de carne suína e isso funciona como um desestímulo ao crescimento da produção. Mesmo assim eu diria que se fosse feito algum investimento em suinocultura ele seria feito no Centro-Oeste do país. Esta região tem grandes perspectivas para o futuro, porém, hoje, ainda é o Sul que domina.

 

Em relação à baixa rentabilidade da suinocultura, o que os suinocultores brasileiros tem feito para conviver com essa situação?

Pedro: Realmente, os últimos anos têm sido anos difíceis. A necessidade de aumentar produtividades zootécnicas e um gerenciamento apurado das atividades é crescente. Felizmente, o setor tem reagido muito bem e chegou a 2010, um bom ano, em condições de equilíbrio.

 

Para os suinocultores não integrados é ainda mais difícil permanecer na atividade, correto?

Pedro: Preferimos falar em produtores com contrato e produtores sem contrato que atuam no mercado spot. Entre os produtores com contrato existem aqueles que têm o contrato chamado "integrado", em que a indústria assume o fornecimento de insumos e tecnologia. Todos perderam muito nos anos passados. Os produtores do mercado spot mais do que os outros. No caso dos integrados, a indústria de processamento absorveu parte do prejuízo. Todos os produtores integrados, com contrato ou não precisam estar atentos a custos e avanços tecnológicos.

 

A baixa rentabilidade traz alguma consequência para a qualidade da carne produzida?

Pedro: O perdedor da baixa rentabilidade é o setor produtivo. O produto, a carne, é a mesma, sem prejuízos para a qualidade.

 

A cadeia da suinocultura ainda esbarra em problemas ambientais. O que poderia ser feito para reduzir os impactos da atividade?

Pedro: Toda a questão da sustentabilidade da produção é um grande desafio que tem sido enfrentado com competência. Na região Sul, a maior parte dos produtores já equacionou a questão ambiental dos dejetos dos suínos, o principal item numa agenda ambiental. Ainda existem outras questões que vão aos poucos sendo enfrentadas. Um número menor de produtores, em particular da suinocultura de subsistência, ainda enfrenta problemas que exigem ação de políticas públicas, em especial o financiamento dos investimentos necessários.

 

O senhor considera a geração de energia (biogás) a partir dos dejetos como uma possibilidade interessante de renda adicional?

Pedro: Certamente, a geração de energia do biogás deve auxiliar no equilíbrio do produtor. Considero mais como uma redução de custos do que propriamente renda adicional, porém isto, no fundo, é a mesma coisa.

 

Que percentual de suinocultores brasileiros poderiam se beneficiar dessa alternativa?

Pedro: A grande maioria pode se beneficiar, para não falar em todos os produtores inseridos na cadeia produtiva da indústria de processamento, que é quem tem recursos suficientes para instalação da estrutura necessária à geração de biogás, a começar pelos biodigestores que tem custo muito alto.

 

Como o senhor enxerga a participação da suinocultura no mercado de créditos de carbono?

Pedro: Enxergava com clareza até recentemente, porém, parece-nos que toda a questão dos créditos de carbono encontra-se em processo de reflexão.

 

Ao mesmo tempo em que se tem, no Brasil, uma produção de carne suína com alto valor agregado em algumas regiões, convive-se também com o abate clandestino em outras. O que isso representa, em termos de imagem da carne suína brasileira, no mercado externo?

Pedro: O abate clandestino nos suínos é cada dia menor e encontrado hoje basicamente na região Nordeste. Todos os centros urbanos hoje são abastecidos com abate inspecionado, quer seja federal, estadual e até mesmo a inspeção municipal. Não acredito que isso afete a imagem no exterior, pois sabidamente somente se exporta carne com abate inspecionado federal. Nossa chancela de qualidade é o SIF.

 

Qual é a sua sugestão para se acabar com o abate clandestino, de uma vez por todas?

Pedro: É preciso fiscalização e, em paralelo, apoiar o produtor para que se insira na cadeia com inspeção, aliás, o que já vem ocorrendo.


*Pedro de Camargo Neto , atualmente na presidência da ABIPECS, foi secretário de Produção e Comercialização do Ministério da Agricultura, em 2001 e 2002. Pecuarista, ele é um dos idealizadores do FUNDEPEC (Fundo de Desenvolvimento da Pecuária do Estado de São Paulo), entidade que dirigiu entre 1991 e 2000. Presidiu a Sociedade Rural Brasileira entre 1990 e 1993. Pedro de Camargo Neto foi também o idealizador dos contenciosos na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra os subsídios norte-americanos ao algodão e europeus ao açúcar, no período em que chefiou a Secretaria de Produção e Comercialização do MAPA. Além de temas como mercados, sanidade, comércio exterior, questões tributárias e de infra-estrutura, que fazem parte da agenda do setor e com a qual Camargo Neto se preocupa em sua rotina diária, outros assuntos envolvem a ABIPECS, como as negociações da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio e acordos comerciais em geral. Camargo Neto é doutor em Engenharia de Produção pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e MSc. pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology).

[ voltar ]